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#26 Carta de Valor - A Lua Não É de Ninguém — Ainda

O posicionamento econômico

Ontem à noite, uma cápsula chamada Integrity fez um perfeito Splashdown no Pacífico perto de San Diego.

Dentro dela, quatro astronautas voltavam de uma jornada de quase 700.000 milhas — a mais longa que seres humanos fizeram desde a Apollo 13, em 1970. A missão Artemis II foi o primeiro voo tripulado além da órbita baixa da Terra em mais de cinquenta anos. As fotos da Lua tiradas pela janela da Orion rodaram o mundo. A narrativa foi de triunfo.

Mas eu quero falar do que está por baixo dessa foto.

Apollo foi o auge de uma era. Artemis é o teste de outra.

Quando Neil Armstrong pisou na Lua em 1969, os EUA não estavam apenas ganhando uma corrida. Estavam capitalizando décadas de domínio industrial, científico e financeiro. O dólar era o padrão. A OTAN estava coesa. O capitalismo ocidental era o único modelo que parecia funcionar em escala global.

O programa Apollo foi possível porque esse sistema existia — não o contrário.

Artemis é diferente. Múltiplos atrasos, cortes de 25% no orçamento da NASA e apenas 70% de probabilidade de aterrissagem lunar antes de 2028. Não é incompetência. É a fricção de um sistema que deixou de ser unipolar.

Do outro lado, há outra deusa lunar.

Chang'e é o nome da deusa chinesa da Lua. E o seu programa espacial não tropeça.

Em junho de 2024, a Chang'e 6 voltou à Terra com amostras do lado oculto da Lua — algo que nenhuma nação tinha feito. Não foi um golpe de sorte: foi o quinto passo consecutivo de uma sequência metodicamente executada.

A Chang'e 7, com lançamento previsto ainda para 2026, vai explorar o Polo Sul lunar — a região de maior interesse estratégico, onde existem reservas de gelo de água que podem ser usadas como oxigênio, água potável e combustível para foguetes.

"Os países que chegarem primeiro vão escrever as regras do que podemos fazer na Lua." — Mike Gold, ex-administrador associado da NASA, em audiência no Senado.

Isso não é metáfora. É literalmente o que está em jogo.

Quem está na corrida — e onde cada um está

Este não é mais um duelo bilateral. É um campeonato com múltiplos competidores, cada um com uma estratégia diferente.

Os EUA lideram em infraestrutura comercial e capacidade de lançamento. A SpaceX completou 134 lançamentos em 2024, capturando mais de 50% do mercado comercial global, e o Starlink já atingiu 9 milhões de assinantes. Mas o setor público americano sangra: cortes no orçamento da NASA coexistem com um aumento militar espacial de $25 bilhões via "Golden Dome".

A China avança com consistência e visão de longo prazo. Seu investimento espacial governamental de $19 bilhões em 2024 é expressivo — mas ainda $60 bilhões menor que o dos EUA. A diferença está na execução: sem eleições, sem mudanças de governo, sem interrupções orçamentárias.

A Europa detém 18% da economia espacial global — cerca de $85 bilhões — mas fica muito atrás em capacidade de lançamento comercial. Parceira no Artemis, porém sem autonomia estratégica real.

A Índia emergiu como a grande surpresa. Pousou no Polo Sul lunar em 2023 com uma fração do custo das missões ocidentais. E não tem uma empresa espacial listada em bolsa — o que significa que o investidor de varejo não consegue acessar esse crescimento diretamente.

A Rússia é o aviso. A potência que forçou os EUA a correr para a Lua em 1969 hoje detém apenas 1% da economia espacial global. O que era rival estratégico virou sócio menor da China. Geopolítica espacial não perdoa quem fica para trás.

A IA entrou na órbita

Há um ator novo nessa corrida que não carrega foguetes — mas que pode definir quem vence.

A inteligência artificial está se tornando o sistema nervoso central da nova economia espacial. Na semana passada, a Nvidia anunciou parceria com a Planet Labs: o satélite Pelican-4 rodou detecção de objetos com IA a bordo, identificou aeronaves em segundos, e enviou apenas os resultados comprimidos para a Terra. Menos banda. Menos latência. Mais inteligência no espaço.

Jensen Huang, CEO da Nvidia — GTC 2026:
"A computação espacial, a fronteira final, chegou." A empresa anunciou plataformas para data centers orbitais e operações espaciais autônomas.

Quem controla a IA no espaço, controla a inteligência do espaço. E quem controla a inteligência do espaço, controla a vantagem estratégica sobre a Terra.

A nova economia espacial: os números que importam

$626 bilhões — tamanho da economia espacial global em 2025. O dobro de uma década atrás. 78% vem do setor comercial.

$1 trilhão — projeção para 2032–2034, impulsionada por constelações de satélites, custos de lançamento em queda e gasto crescente em defesa espacial.

$45 bilhões — investimento privado no setor em 2025, quase o dobro dos $25 bilhões de 2024.

Mas atenção: a maior parte desse valor hoje vem de serviços habilitados por satélite — televisão, GPS, meteorologia — que o consumidor usa sem saber que está financiando uma corrida espacial. A camada de extração de recursos lunares, fusão nuclear com hélio-3 e manufatura orbital ainda está sendo construída.

Estamos na fase dos trilhos, não das locomotivas.

As empresas que estavam na Apollo — e estão na Artemis

Algumas das empresas que construíram os foguetes de 1969 ainda constroem os de 2026. Mas o mercado pagou de formas muito diferentes por isso.

A Lockheed Martin é o principal contratante da espaçonave Orion. A Boeing é o contratante principal do SLS, o foguete que propulsionou a missão. A L3Harris, por meio da Aerojet Rocketdyne, fornece os motores RS-25 do estágio central.

Empresa

Papel no Artemis

Performance 5 anos

Tese

NOC

Sistemas espaciais, B-21

+14,46% a.a. · +29% em 2026

Consistência. Backlog de $95,7 bi.

LMT

Orion, F-35, mísseis

+13,73% a.a. · Sharpe 1,55

Renda. Dividendo crescente há 22 anos.

BA

SLS core stage

+24% em 12 meses · fraco em 5 anos

Turnaround. Alta recompensa, alto risco.

Atenção: Nem toda exposição ao espaço é igual. LMT e NOC são negócios de defesa com um componente espacial crescente e previsível. BA é uma aposta diferente — ela precisa se curar antes de decolar.

Minha Aposta

Quem pousar na Lua primeiro vai reinar no topo por 50 anos.

Não porque a Lua vale por si mesma — mas porque o país que chegar primeiro vai escrever as regras, controlar a infraestrutura, e ditar os termos de toda a economia que se construir a partir daí. Foi assim com os oceanos no século XV. Foi assim com o petróleo no século XX. A Lua é o ativo estratégico do século XXI — e a janela para chegar primeiro está se fechando agora, em tempo real, enquanto você lê isso.

Duas infraestruturas. Dois sistemas de regras. Dois blocos de capitalismo — um aberto, um fechado. E nós, investidores, precisamos entender em qual deles estamos alocando capital — mesmo quando achamos que estamos apenas comprando um ETF.

Até domingo que vem e obrigado pela Leitura.

Victor Giorgi

VGi+ - Founder

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