#22 Carta de Valor

Dunning-Kruger, ETFs e UCITS: por que estrutura vence ego

Alguns anos atrás ouvi uma história que nunca esqueci.

Ela não aconteceu em Wall Street.

Aconteceu em uma pequena escola de aviação.

O instrutor colocava dois alunos para avaliar a própria performance após um voo de treinamento.

Curiosamente, o aluno menos preparado quase sempre dizia algo como:

“Foi ótimo. Acho que fui muito bem.”

Já o aluno mais preparado respondia de forma bem diferente:

“Ainda preciso melhorar bastante.”

Esse padrão se repetia tantas vezes que virou quase uma piada interna entre os instrutores.

Mas não era uma piada.

Era um padrão humano.

Quem sabe pouco costuma acreditar que sabe muito.
Quem entende a complexidade de um sistema costuma se tornar mais cauteloso.

Esse fenômeno foi estudado pelos psicólogos David Dunning e Justin Kruger e ficou conhecido como Dunning–Kruger effect.

A conclusão deles é simples.

Quando sabemos pouco sobre um assunto, muitas vezes superestimamos nossa própria competência.

Nos mercados financeiros isso acontece o tempo todo.

A confiança nasce cedo demais

O investidor começa a estudar.

Assiste alguns vídeos.
Lê alguns relatórios.
Compra duas ou três ações.

Uma delas sobe.

De repente, surge a sensação de domínio.

“Eu entendi o mercado.”

Mas mercados são sistemas complexos.

E sistemas complexos raramente obedecem à confiança humana.

O mercado não recompensa arrogância

Diversos estudos ao longo das últimas décadas mostram algo desconfortável.

Bater consistentemente o mercado é extremamente difícil.

Relatórios da S&P Dow Jones Indices, conhecidos como SPIVA, analisam o desempenho de gestores ativos e mostram que uma grande parcela deles não consegue superar seus índices de referência ao longo do tempo.

Isso não significa que ninguém consiga bater o mercado.

Mas significa que é muito mais difícil do que parece.

Talvez por isso alguns dos maiores investidores da história tenham defendido algo que parece simples demais.

A elegância dos ETFs

O investidor Warren Buffett já disse várias vezes que, para grande parte das pessoas, fundos indexados de baixo custo são uma estratégia extremamente eficiente.

A lógica é direta.

Se prever consistentemente quais empresas serão as vencedoras é difícil, por que não capturar o crescimento do mercado como um todo?

É exatamente isso que os ETFs fazem.

Eles permitem investir em centenas ou milhares de empresas ao mesmo tempo.

Sem precisar acertar qual será a vencedora.

Essa ideia parece simples.

Mas ela carrega uma filosofia profunda:

humildade intelectual.

Um momento importante na história dos investimentos

Pouca gente lembra, mas a revolução da indexação começou décadas atrás.

Nos anos 1970, um gestor chamado John C. Bogle teve uma ideia considerada quase herética na época.

Ele propôs algo radicalmente simples.

Criar um fundo que não tentasse bater o mercado.

A proposta era apenas replicar o índice.

Muitos críticos chamaram a ideia de “mediocridade garantida”.

Hoje sabemos que ela acabou se tornando uma das maiores revoluções da história dos investimentos.

Os fundos indexados e os ETFs mudaram completamente a forma como investidores participam do crescimento econômico global.

Quando a conversa sobe de nível

Mas existe um nível ainda mais sofisticado nessa discussão.

A maioria das pessoas pergunta:

“Qual ETF comprar?”

Investidores mais experientes fazem outra pergunta:

“Em qual estrutura esse ETF está inserido?”

Essa pergunta leva a um conceito importante para investidores globais:

UCITS.

UCITS significa Undertakings for Collective Investment in Transferable Securities e representa um regime regulatório europeu criado para padronizar fundos de investimento com alto nível de proteção ao investidor.

Esse modelo é supervisionado dentro do arcabouço regulatório da European Securities and Markets Authority.

Hoje, muitos ETFs UCITS são domiciliados em centros financeiros como Irlanda e Luxemburgo.

Eles são amplamente utilizados por investidores institucionais e por investidores internacionais que buscam uma estrutura regulatória robusta.

A arquitetura do patrimônio

Quando um investidor começa a entender estruturas como UCITS, algo muda.

A conversa deixa de ser apenas sobre ativos.

Ela passa a ser sobre arquitetura patrimonial.

Perguntas começam a surgir:

  • Em qual jurisdição está meu investimento?

  • Como funciona a tributação?

  • Existe risco sucessório internacional?

  • Qual é a estrutura legal do veículo de investimento?

Essas perguntas raramente aparecem no início da jornada.

Mas elas fazem enorme diferença ao longo do tempo.

Um detalhe pouco discutido

Investidores internacionais que compram ativos diretamente nos Estados Unidos podem estar sujeitos a regras específicas de imposto sucessório.

De acordo com o Internal Revenue Service, o chamado estate tax pode incidir sobre ativos localizados nos Estados Unidos pertencentes a investidores não residentes.

Isso não significa que investir nos Estados Unidos seja um erro.

Mas significa que estrutura importa.

E muitos investidores globais utilizam ETFs UCITS justamente como parte de um planejamento patrimonial internacional mais eficiente.

Alguns exemplos de ETFs UCITS

Para investidores internacionais, existem ETFs UCITS que replicam alguns dos principais índices globais.

Entre eles:

  • CSPX

  • IWDA

  • VWRA

Esses ETFs permitem acessar mercados globais dentro de uma estrutura amplamente utilizada fora dos Estados Unidos.

Um risco que raramente é discutido

Existe um tipo de concentração que passa despercebido por muitos investidores.

A concentração geográfica.

Muitos investidores têm:

  • 100% do patrimônio em uma moeda

  • 100% dos ativos em um país

  • 100% da exposição a um único sistema regulatório

Ao longo da história econômica isso já se mostrou extremamente perigoso.

Diversos episódios de inflação, crises cambiais e mudanças regulatórias destruíram patrimônios inteiros que estavam concentrados em um único país.

Por isso investidores globais procuram diversificação não apenas entre empresas, mas também entre jurisdições.

A maturidade do investidor

Com o tempo, quase todo investidor passa por algumas fases.

Primeiro vem a curiosidade.

Depois o entusiasmo.

Em seguida a confiança.

Depois aparecem os erros.

E então surge algo muito mais valioso:

humildade intelectual.

É nesse momento que o investidor percebe que o objetivo não é provar que é brilhante.

O objetivo é construir algo que sobreviva ao tempo.

Estrutura vence ego

Talvez essa seja uma das maiores lições dos mercados.

Investir bem não exige genialidade constante.

Exige disciplina.

Exige estrutura.

Exige reconhecer limites.

ETFs capturam o crescimento das economias.

UCITS ajudam a organizar a estrutura internacional do patrimônio.

Juntos, eles representam algo maior do que apenas instrumentos financeiros.

Eles representam uma filosofia.

Uma filosofia baseada em prudência, diversificação e respeito pela complexidade do mundo.

Uma reflexão final

Voltando àquela história da escola de aviação.

O melhor aluno não era o que acreditava que sabia tudo.

Era o que entendia que sempre havia algo a aprender.

Nos mercados acontece a mesma coisa.

O investidor que acredita ter todas as respostas costuma assumir riscos desnecessários.

Já aquele que reconhece a complexidade do sistema tende a construir estruturas mais resilientes.

Talvez por isso uma das ideias mais elegantes do investimento moderno seja simples:

estrutura vence ego.

Porque no longo prazo patrimônio raramente é destruído por falta de inteligência.

Ele é destruído por excesso de confiança.

Fontes

S&P Dow Jones Indices – SPIVA Reports
https://www.spglobal.com/spdji/en/research-insights/spiva/

European Securities and Markets Authority – UCITS framework
https://www.esma.europa.eu/publications-and-data/interactive-single-rulebook/ucits

Vanguard – História da indexação e John Bogle
https://www.vanguard.com/bogle

Não deixe de comentar e caso queira um tema em especifico, mande pelas minhas redes sociais.

Até a próxima carta de valor,

Victor Giorgi

Especialista em Investimentos Globais e Psicologia Financeira pela universidade de Chicago.

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